Neste estúdio de fotografia de Bamako, África era feliz
Malick Sidibé (1935-2016) era um dos históricos da fotografia. No
seu estúdio, África não era o continente da fome e da miséria - era
jovem, alegre e dançava. Morreu quinta-feira, aos 80 anos. Não era à toa
que lhe chamavam “O Olho de Bamako”.
Malick Sidibé
Sérgio Azenha
António Pinto Ribeiro, programador cultural que conhece bem a arte
contemporânea e a fotografia africanas, guarda na memória o dia em que
esteve no estúdio de Malick Sidibé, na capital do Mali, Bamako. Havia
muita gente à espera de vez para entrar naquele pequeno espaço – não
mais do 12 metros quadrados – onde tudo era encenado, do tecido que se
ia usar como pano de fundo, à pose que o retratado, “tratado com a maior
delicadeza”, devia ensaiar. “E ele sorria, sorria muito, numa atitude
contagiante”, lembra este comissário, no dia em que se noticiou que o
fotógrafo maliano tinha morrido, aos 80 anos (não se sabe a data ao
certo, embora o diário francês Le Monde avance quinta-feira, 14 de Abril). Foi um dos seus sobrinhos, Oumar, quem deu a notícia.
Malick Sidibé aparece sempre na lista dos fotógrafos africanos históricos, com nomes como Ricardo Rangel (Moçambique), David Goldblatt (África do Sul) e Seydou Keïta (também do Mali). “Ele fez parte de uma geração que usou a fotografia para mostrar que África estava a mudar”, diz Pinto Ribeiro ao PÚBLICO. “E isto numa atitude muito séria, empenhada. Ele é um dos históricos da fotografia africana – eu diria mesmo mundial – não só pelas imagens que criou, mas pela imagem que deu do continente em que nasceu e trabalhou.”
O fotógrafo, que começa a trabalhar por conta própria no início da década de 1960, num estúdio de bairro que ainda se mantém e que fazia, numa primeira fase, fotografias tipo passe para os bilhetes de identidade, marcou decisivamente um período que coincide com o advento das independências africanas. “Ele apercebe-se, e faz por acompanhar, com grande originalidade, essa ebulição. Está perfeitamente consciente de que a sua fotografia produz uma imagem completamente diferente de África, uma imagem que se distancia daquela que, durante décadas, foi promovida pelas nações colonizadoras”, explica Pinto Ribeiro, que com o Programa Próximo Futuro, que dirigiu na Gulbenkian, tantas vezes, e sob tantas formas, reflectiu sobre a produção artística e literária contemporânea africana.
Tivera a sua primeira câmara seis anos antes, uma Brownie, pequena e leve, ideal para quem fotografa em bailes e outras festas, actividade a que se dedica intensamente nos anos 1960. Guillat-Guignard, dizia, não o ensinou a fotografar, mas vê-lo em acção fez com que Sidibé aprendesse muito. E fosse capaz de criar a sua própria maneira de captar a realidade, ainda que em alguns dos seus trabalhos se sinta a presença de outro grande retratista do Mali, Seydou Keïta (1921-2001).
Já a trabalhar por conta própria, Sidibé rapidamente se torna uma figura popular na vida cultural do Mali. Não é de estranhar, já que se especializa em fotografar casamentos e outras festas e bailes que se prolongam pela noite dentro, muitos deles até depois do nascer do sol, nas margens do rio Níger. Neles os jovens partilhavam a música e a dança vindas dos Estados Unidos, da Europa e de Cuba. O rock e o twist, as modas de Paris. Neles se dava uma outra imagem de África – calorosa, alegre, moderna – que este maliano ajuda a moldar, a fixar. E que depois replica em estúdio, sobretudo na década seguinte, em retratos individuais e colectivos que reflectem, mais do que uma opção estética, uma posição política.
Malick Sidibé aparece sempre na lista dos fotógrafos africanos históricos, com nomes como Ricardo Rangel (Moçambique), David Goldblatt (África do Sul) e Seydou Keïta (também do Mali). “Ele fez parte de uma geração que usou a fotografia para mostrar que África estava a mudar”, diz Pinto Ribeiro ao PÚBLICO. “E isto numa atitude muito séria, empenhada. Ele é um dos históricos da fotografia africana – eu diria mesmo mundial – não só pelas imagens que criou, mas pela imagem que deu do continente em que nasceu e trabalhou.”
O fotógrafo, que começa a trabalhar por conta própria no início da década de 1960, num estúdio de bairro que ainda se mantém e que fazia, numa primeira fase, fotografias tipo passe para os bilhetes de identidade, marcou decisivamente um período que coincide com o advento das independências africanas. “Ele apercebe-se, e faz por acompanhar, com grande originalidade, essa ebulição. Está perfeitamente consciente de que a sua fotografia produz uma imagem completamente diferente de África, uma imagem que se distancia daquela que, durante décadas, foi promovida pelas nações colonizadoras”, explica Pinto Ribeiro, que com o Programa Próximo Futuro, que dirigiu na Gulbenkian, tantas vezes, e sob tantas formas, reflectiu sobre a produção artística e literária contemporânea africana.
Os decisivos anos 60
Nascido em 1935 (ou 1936) em Soloba, uma aldeia hoje a 170 km da capital (na altura a região pertencia ao Sudão francês), num meio completamente rural, começou a guardar o rebanho da família aos cinco anos e, por isso, só entrou na “escola branca” aos 10. Foi aí que se destacou pelos seus dotes para o desenho, que mais tarde viriam a ser muito úteis na composição em estúdio. Depois de estudar na Escola de Artesãos Sudaneses de Bamako, para onde entrou em 1952, por indicação do governador colonial, Sidibé tornou-se aprendiz de Gérard Guillat-Guignard, que fotografava as elites locais e era conhecido pela deliciosa alcunha “Gégé la pellicule” (qualquer coisa como ‘Gégé o filme’), até criar o seu estúdio em 1962, quando o Mali se tornou independente. Foi nessa altura que começaram a chamar-lhe “O Olho de Bamako”.Tivera a sua primeira câmara seis anos antes, uma Brownie, pequena e leve, ideal para quem fotografa em bailes e outras festas, actividade a que se dedica intensamente nos anos 1960. Guillat-Guignard, dizia, não o ensinou a fotografar, mas vê-lo em acção fez com que Sidibé aprendesse muito. E fosse capaz de criar a sua própria maneira de captar a realidade, ainda que em alguns dos seus trabalhos se sinta a presença de outro grande retratista do Mali, Seydou Keïta (1921-2001).
Já a trabalhar por conta própria, Sidibé rapidamente se torna uma figura popular na vida cultural do Mali. Não é de estranhar, já que se especializa em fotografar casamentos e outras festas e bailes que se prolongam pela noite dentro, muitos deles até depois do nascer do sol, nas margens do rio Níger. Neles os jovens partilhavam a música e a dança vindas dos Estados Unidos, da Europa e de Cuba. O rock e o twist, as modas de Paris. Neles se dava uma outra imagem de África – calorosa, alegre, moderna – que este maliano ajuda a moldar, a fixar. E que depois replica em estúdio, sobretudo na década seguinte, em retratos individuais e colectivos que reflectem, mais do que uma opção estética, uma posição política.
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